Quarta, 26 de Agosto de 2026
Publicidade

Lula diz que Trump é desonesto, mas mantém abertura para negociar “Trump busca impunidade”, diz Lula, que mantém diálogo com os EUA

Lula diz que Trump é desonesto, mas mantém abertura para negociar “Trump busca impunidade”, diz Lula, que mantém diálogo com os EUA

15/09/2025 às 10h38
Por: Redação
Compartilhe:
Lula diz que Trump é desonesto, mas mantém abertura para negociar “Trump busca impunidade”, diz Lula, que mantém diálogo com os EUA

Em um artigo publicado neste domingo (14.09) no jornal norte-americano The New York Times, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um duro recado ao governo dos Estados Unidos, em especial ao presidente Donald Trump. “A democracia e a soberania brasileiras não estão em pauta”, escreveu.

No texto, Lula critica a decisão da Casa Branca de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, classificando a medida como “equivocada e ilógica”. Segundo ele, não há déficit comercial dos EUA com o Brasil que justifique a taxação — pelo contrário, nos últimos 15 anos, os americanos acumularam superávit de US$ 410 bilhões na balança bilateral.

O presidente brasileiro acusou Washington de agir por motivação política e não econômica. Citou que a administração Trump estaria usando tarifas e a Lei Magnitsky para pressionar o Brasil em favor do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado.

Lula destacou que a decisão do STF foi resultado de “meses de investigação” que revelaram planos para assassinar autoridades e anular as eleições de 2022. “Não se tratou de caça às bruxas, mas da defesa da Constituição e do Estado Democrático de Direito”, afirmou.

O petista também rebateu críticas dos EUA ao sistema judicial brasileiro e às regras de regulação das plataformas digitais. “É desonesto chamar regulamentação de censura, especialmente quando o que está em jogo é proteger nossas famílias contra fraudes, desinformação e discurso de ódio”, escreveu.

Na área ambiental, Lula defendeu o esforço brasileiro no combate ao desmatamento, lembrando que a taxa caiu pela metade em dois anos. Ele alertou, porém, que a Amazônia continuará em risco se não houver compromisso internacional na redução de gases de efeito estufa.

Apesar do tom crítico, o presidente reforçou abertura ao diálogo: “Não há diferenças ideológicas que impeçam dois governos de trabalharem juntos. Mas a democracia e a soberania do Brasil não estão em negociação”.

Leia Também - Abilio determina multa por irregularidades em rede de energia

Leia a íntegra do artigo

A democracia e a soberania brasileiras são inegociáveis

Decidi escrever este ensaio para estabelecer um diálogo aberto e franco com o presidente dos Estados Unidos. Ao longo de décadas de negociação, primeiro como líder sindical e depois como presidente, aprendi a ouvir todos os lados e a levar em conta todos os interesses em jogo. Por isso, examinei cuidadosamente os argumentos apresentados pelo governo Trump para impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.

A recuperação dos empregos americanos e a reindustrialização são motivações legítimas. Quando, no passado, os Estados Unidos levantaram a bandeira do neoliberalismo, o Brasil alertou para seus efeitos nocivos. Ver a Casa Branca finalmente reconhecer os limites do chamado Consenso de Washington, uma prescrição política de proteção social mínima, liberalização comercial irrestrita e desregulamentação generalizada, dominante desde a década de 1990, justificou a posição brasileira.

Mas recorrer a ações unilaterais contra Estados individuais é prescrever o remédio errado. O multilateralismo oferece soluções mais justas e equilibradas. O aumento tarifário imposto ao Brasil neste verão não é apenas equivocado, mas também ilógico. Os Estados Unidos não têm déficit comercial com o nosso país, nem estão sujeitos a tarifas elevadas. Nos últimos 15 anos, acumularam um superávit de US$ 410 bilhões no comércio bilateral de bens e serviços. Quase 75% das exportações dos EUA para o Brasil entram isentas de impostos. Pelos nossos cálculos, a tarifa média efetiva sobre produtos americanos é de apenas 2,7%. Oito dos 10 principais itens têm tarifa zero, incluindo petróleo, aeronaves, gás natural e carvão.

A falta de justificativa econômica por trás dessas medidas deixa claro que a motivação da Casa Branca é política. O vice-secretário de Estado, Christopher Landau, teria dito isso no início deste mês a um grupo de líderes empresariais brasileiros que trabalhavam para abrir canais de negociação. O governo americano está usando tarifas e a Lei Magnitsky para buscar impunidade para o ex-presidente Jair Bolsonaro, que orquestrou uma tentativa fracassada de golpe em 8 de janeiro de 2023, em um esforço para subverter a vontade popular expressa nas urnas.

Tenho orgulho do Supremo Tribunal Federal (STF) por sua decisão histórica na quinta-feira, que salvaguarda nossas instituições e o Estado Democrático de Direito. Não se tratou de uma "caça às bruxas". A decisão foi resultado de procedimentos conduzidos em conformidade com a Constituição Brasileira de 1988, promulgada após duas décadas de luta contra uma ditadura militar. A decisão foi resultado de meses de investigações que revelaram planos para assassinar a mim, ao vice-presidente e a um ministro do STF. As autoridades também descobriram um projeto de decreto que teria efetivamente anulado os resultados das eleições de 2022.

O governo Trump acusou ainda o sistema judiciário brasileiro de perseguir e censurar empresas de tecnologia americanas. Essas alegações são falsas. Todas as plataformas digitais, nacionais ou estrangeiras, estão sujeitas às mesmas leis no Brasil. É desonesto chamar regulamentação de censura, especialmente quando o que está em jogo é a proteção de nossas famílias contra fraudes, desinformação e discurso de ódio. A internet não pode ser uma terra de ilegalidade, onde pedófilos e abusadores têm liberdade para atacar nossas crianças e adolescentes.

Igualmente infundadas são as alegações do governo sobre práticas desleais do Brasil no comércio digital e nos serviços de pagamento eletrônico, bem como sua suposta falha em aplicar as leis ambientais. Ao contrário de ser injusto com os operadores financeiros dos EUA, o sistema de pagamento digital brasileiro, conhecido como PIX, possibilitou a inclusão financeira de milhões de cidadãos e empresas. Não podemos ser penalizados por criar um mecanismo rápido, gratuito e seguro que facilita as transações e estimula a economia.

Nos últimos dois anos, reduzimos a taxa de desmatamento na Amazônia pela metade. Só em 2024, a polícia brasileira apreendeu centenas de milhões de dólares em ativos usados em crimes ambientais. Mas a Amazônia ainda estará em perigo se outros países não fizerem a sua parte na redução das emissões de gases de efeito estufa. O aumento das temperaturas globais pode transformar a floresta tropical em uma savana, interrompendo os padrões de precipitação em todo o hemisfério, incluindo o Centro-Oeste americano.

Quando os Estados Unidos viram as costas para uma relação de mais de 200 anos, como a que mantêm com o Brasil, todos perdem. Não há diferenças ideológicas que impeçam dois governos de trabalharem juntos em áreas nas quais têm objetivos comuns.

Presidente Trump, continuamos abertos a negociar qualquer coisa que possa trazer benefícios mútuos. Mas a democracia e a soberania do Brasil não estão em pauta. Em seu primeiro discurso à Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2017, o senhor afirmou que “nações fortes e soberanas permitem que países diversos, com valores, culturas e sonhos diferentes, não apenas coexistam, mas trabalhem lado a lado com base no respeito mútuo”. É assim que vejo a relação entre o Brasil e os Estados Unidos: duas grandes nações capazes de se respeitarem mutuamente e cooperarem para o bem de brasileiros e americanos.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Lenium - Criar site de notícias